Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto lançam “Afrossinfonicidade” Vol. 2

Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto lançaram, neste dia 26 de junho, o segundo volume do projeto “Afrossinfonicidade”. O trabalho foi gravado ao vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, e aproxima a percussão afro-brasileira da linguagem sinfônica.
O primeiro volume do álbum já está disponível nas plataformas digitais e reúne releituras de músicas como “Segue o Seco”, “Frases Ventias”, “Argila”, “Maria de Verdade”, “Magamalabares” e “Muito Obrigado Axé”. O Volume 2 amplia o repertório com canções que atravessam diferentes fases da obra de Brown, incluindo “Vilarejo”, “Velha Infância”, “Amor I Love You”, “E.C.T.”, “Já Sei Namorar” e “A Namorada”. O lançamento também será acompanhado pelo audiovisual completo do show.
Carlinhos Brown passou a carreira tratando o ritmo como matéria viva. Compositor, cantor, percussionista e produtor, ele é criador da Timbalada, integrante dos Tribalistas e autor de uma obra que circula por diferentes lugares da música brasileira. Autor de mais de 908 músicas registradas pelo Ecad, Brown afirmou que ter o ritmo no corpo é também ter o princípio de educação musical e formação nas comunidades.
Em seu repertório, estão composições gravadas por nomes como Marisa Monte, Maria Bethânia e Tribalistas, além de “Ratamahatta”, faixa do Sepultura lançada em 1996 no álbum Roots, em que Brown aparece entre os compositores. Essa amplitude ajuda a entender o projeto, que não parte da ideia de que a música popular precisa ser elevada por uma orquestra. O caminho é outro: Brown e a Orquestra Ouro Preto mostram como tambor, cordas, voz, berimbau, corpo, rua, igreja, terreiro e palco sempre estiveram próximos.
Para Brown, o encontro com a Orquestra Ouro Preto deu forma a uma ambição antiga. Ele disse que, ao chegar na orquestra, foi como ter chegado à academia, uma pós-graduação, porque seu pensamento é sinfônico. O artista também falou sobre a importância de ouvir sua obra fora da moldura imediatamente associada ao carnaval e à música baiana de massa. Brown não nega essa dimensão festiva, mas recusa que ela seja a única leitura possível para sua música.
Um dos pontos fortes do projeto está na ideia de risco. Brown contou que há trechos em que a partitura fica em branco e a condução passa a depender do olhar, do ouvido e da confiança entre os músicos. Para o maestro Rodrigo Toffolo, esse ponto de encontro entre o controle da orquestra e a liberdade da música popular é a chave do projeto. Ele explicou que a música erudita não pode ser tão quadrada e a música popular não pode ser tão solta, e que eles encontram um ponto de interseção.
O lançamento de “Afrossinfonicidade” chega em um momento em que orquestras brasileiras enfrentam sinais de fragilidade. Em Minas Gerais, músicos denunciaram remunerações insuficientes e déficit no quadro da orquestra. Em São Paulo, a Orquestra Sinfônica de Santo Amaro interrompeu atividades após o fim da parceria com a Prefeitura. Brown afirmou que a inteligência ancestral atravessa os tempos e que o coletivo se reúne para dizer que está presente.
Brown ainda fez uma defesa importante: a orquestra não pode virar apenas um efeito bonito ou uma simulação de grandiosidade. Ele disse que hoje é possível chegar no estúdio e ter um som de orquestra no teclado, mas questionou onde estão as outras mãos e as outras almas. É por isso que o registro ao vivo importa, preservando a resposta do público e a sensação de que a música está sendo construída ali, diante de todo mundo.


