Father of Peace: banda israelense que alimenta teorias

O algoritmo jogou a jornalista Mariana Froes, propositalmente, no som grudento e estranhamente familiar da banda Father of Peace. A primeira impressão foi a de estar ouvindo uma banda americana qualquer, mas as letras davam pistas de que havia algo diferente ali.
Ao pesquisar, a descoberta foi que o trio é israelense — informação que foi uma das mais difíceis de encontrar, com pouquíssimo material disponível sobre a banda na internet. A descoberta deixou a jornalista reticente, com o dilema sobre o que significa gostar ou apoiar uma banda israelense sem conhecer seu posicionamento diante dos conflitos que envolvem Israel, Palestina e Irã.
O pouco que se conseguiu descobrir é que o grupo passou recentemente por uma mudança na formação. Antes, o baixo era ocupado por April Mandil. Agora, quem assume o posto é May Alpert. Completam o trio o vocalista e guitarrista Avshalom Ariel e o baterista Tom Bollig.
Musicalmente, o impacto foi imediato. Ao ouvir “Enemy”, a jornalista pensou em System of a Down. O vocal teatral de Avshalom Ariel remete à expressividade de Serj Tankian, transitando entre momentos melódicos e explosões rasgadas. Em outros momentos, ouviu ecos de Red Hot Chili Peppers, The Mars Volta, indie rock, pop e até metal. A bateria de Tom Bollig dá personalidade a músicas estruturalmente simples, e muitas delas são curtas, deixando a sensação de que poderiam continuar.
Outro aspecto que chama atenção é a estética visual. Os integrantes aparecem em vídeos curtos no YouTube e TikTok com cores vibrantes, figurinos chamativos e uma atmosfera quase plástica. Várias artes de capa utilizam elementos que lembram cartas de tarô. Em buscas, a jornalista encontrou quem afirmasse que o Father of Peace teria sido criado por inteligência artificial, mas isso não parece ser o caso.
O que fez a jornalista mergulhar na banda foram as letras. Em uma publicação do grupo, a banda afirma que jamais celebrará a morte, a fome, a violência ou a ocupação. A mensagem continua com críticas aos líderes mundiais, que, segundo o grupo, mentem e não valorizam a vida humana. A banda evita mencionar países ou conflitos específicos, mas a escolha de palavras como “ocupação”, partindo de músicos israelenses, torna difícil ignorar as possíveis camadas políticas.
A música “Persian” fala sobre uma pessoa da família do narrador que seria persa. Considerando que a banda é israelense e que os persas correspondem ao povo associado ao atual Irã, a pergunta sobre uma referência à rivalidade geopolítica entre os dois países surge naturalmente, mas a letra não oferece respostas claras. Em alguns fóruns, há a teoria de que o “persa” poderia ser o próprio baterista Tom Bollig.
“Enemy” trabalha um conflito semelhante, com o refrão repetindo: “Inimigo, inimigo, você faz parte de mim”. A frase pode ser interpretada como uma relação pessoal destruída, mas também abre espaço para leituras sobre identidade e conflito. A impressão é que as músicas transitam entre o íntimo e o político, sem nunca assumir uma posição explícita.


