Cinema Brasileiro: 10 filmes que marcam a nova fase

No dia 19 de junho, é celebrado o Dia do Cinema Brasileiro. A data remete às primeiras imagens em movimento registradas no país. Segundo a tradição mais aceita, reconhecida pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), foi nesse dia que o ítalo-brasileiro Affonso Segretto filmou a entrada da Baía de Guanabara a bordo de um navio vindo da Europa, em 1898. Mais de um século depois, o cinema nacional vive um momento que merece ser comemorado.
Nos últimos anos, produções brasileiras passaram a disputar espaço nos principais festivais do mundo. Conquistaram premiações importantes e ampliaram sua repercussão junto ao público. Uma nova geração de realizadores dialoga com diferentes gêneros, formatos e temas sem abrir mão de uma identidade própria. O resultado é uma filmografia recente marcada pela diversidade: há dramas políticos, familiares, documentários, ficção científica, horror, suspense e obras que desafiam qualquer classificação simples.
Para celebrar a boa fase e o Dia do Cinema Brasileiro, foram reunidos dez filmes que ajudam a entender por que o país está em uma fase rica para a produção nacional. Antes da lista principal, vale citar dois títulos que se tornaram símbolos nacionais: Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Eles já ocupam um espaço central na discussão sobre o cinema brasileiro contemporâneo e acabariam dominando qualquer ranking. Por isso, foram utilizados como ponto de partida para destacar outras obras.
O primeiro filme da lista é Bacurau (2019). Na trama, Teresa retorna ao pequeno povoado de Bacurau, no sertão pernambucano, e descobre que algo estranho está acontecendo. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme mistura western, ficção científica, terror e sátira política. Conquistou o Prêmio do Júri em Cannes e se transformou em um fenômeno cultural. Poucos filmes brasileiros recentes geraram tantas discussões e alcançaram tamanho impacto internacional.
Em Marte Um (2022), a história acompanha uma família negra da periferia de Belo Horizonte. O pai sonha com o filho virando jogador de futebol, mas o jovem Deivinho tem uma ambição diferente: trabalhar com exploração espacial. Gabriel Martins traz um retrato delicado sobre sonhos e pertencimento. O filme se tornou um dos mais celebrados da década e concorreu para representar o país no Oscar.
As Boas Maneiras (2017) conta a história de Clara, uma enfermeira contratada para cuidar de Ana, uma mulher rica com uma gravidez misteriosa. Juliana Rojas e Marco Dutra utilizam elementos do horror para criar algo particular. Musical, fantasia, drama social e suspense convivem na mesma obra. É um exemplo de como o terror brasileiro tem crescido.
O documentário Retratos Fantasmas (2023) parte das lembranças de Kleber Mendonça Filho sobre o centro do Recife para revisitar cinemas de rua. O filme é uma homenagem à experiência coletiva de assistir a filmes no cinema. É uma obra profundamente pessoal que se conecta com qualquer pessoa apaixonada pela arte cinematográfica.
A Vida Invisível (2019) é ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950. Acompanha as irmãs Eurídice e Guida, separadas por decisões familiares e por uma sociedade machista. Karim Aïnouz adapta o livro homônimo em um melodrama sobre sonhos e oportunidades negadas. Premiado em Cannes, o longa consolidou o reconhecimento internacional do diretor.
Em Medusa (2021), Mariana integra um grupo de jovens que tenta impor padrões rígidos de comportamento às mulheres. Anita Rocha da Silveira cria uma mistura de horror, fantasia e sátira social. O filme discute controle dos corpos, fundamentalismo religioso e violência simbólica. É uma das produções mais ousadas do cinema brasileiro recente.
Carvão (2022) se passa em uma pequena cidade do interior. Uma família recebe a proposta de esconder um traficante argentino em troca de dinheiro. Carolina Markowicz transforma a premissa em uma mistura de humor sarcástico, suspense e crítica social. O filme revela uma autora com estilo demarcado.
O Palhaço (2011) é dirigido e estrelado por Selton Mello. Benjamin trabalha em um circo itinerante e começa a questionar o próprio caminho. O filme combina humor e melancolia de forma simples e profundamente humana. É o título mais antigo da lista, mas continua sendo uma referência importante.
Em Baby (2024), Wellington tenta reconstruir a vida após deixar um centro de detenção juvenil. Marcelo Caetano conduz a narrativa com sensibilidade e evita julgamentos rasos. O resultado é um retrato honesto sobre afeto e identidade, que confirmou a vitalidade da nova geração de cineastas.
O Último Azul (2025) se passa em um Brasil de futuro próximo. Uma mulher de 77 anos recebe a ordem de ingressar em uma colônia para idosos e embarca em uma jornada pela Amazônia. Gabriel Mascaro mistura ficção científica e drama social. O filme reforça a capacidade do cinema brasileiro de abordar temas universais por meio de visões locais.
Talvez a principal característica da atual fase do cinema brasileiro seja a impossibilidade de defini-la por uma única estética. Os filmes produzidos nos últimos anos fazem parte de gêneros diversos, surgem em diferentes regiões do país e dialogam com públicos distintos. Se existe algo que une essas obras não é o tema ou o estilo, mas a disposição de experimentar novas formas e narrativas.


