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Adolescência: Vá, Nakamura-kun, e tenha o coração partido

Por Projeto B News · · 6 min de leitura
Adolescência: Vá, Nakamura-kun, e tenha o coração partido
Imagem: Crunchyroll/Reprodução

Há um rito de passagem para toda pessoa que se apaixona e não é correspondida: o de ver quem você está a fim com um outro alguém. Quando isso ocorre na adolescência, a sensação de deslocamento da realidade é ainda maior. Dá vontade de gritar, chorar, sumir do mundo. Afinal, na juventude, tudo é mais dramático.

Só que, dentro do universo LGBTQ+, isso pode ser ainda mais apocalíptico. A depender de quem for o outro alguém, é a possibilidade, ou a confirmação mesmo, de que a pessoa por quem você se apaixonou sequer joga no seu time. Ou seja, não há, nunca houve e nunca haveria chance. É um amor platônico, irrealizável, inatingível, inalcançável.

É partindo dessa ideia que Go For It, Nakamura-kun!! entrega o seu… Momento Sugoi! Nakamura é um dos grandes animês dessa última temporada de primavera. Baseado no mangá BL de mesmo nome da autora Syundei, acompanhamos a história do estudante de 16 anos Okuta Nakamura. No primeiro dia de aula, Nakamura se apaixona por seu colega de classe Aiki Hirose. Eles nunca tinham conversado nem nada, mas o Nakamura viu ele de longe, achou ele bonito, divertido, interessante.

Então, o Nakamura, que é muito tímido, muito retraído, faz um esforço descomunal para ser notado pelo Hirose, começar uma amizade e torcer para, quiçá, as coisas evoluírem daí. A ideia dá certo pela metade. Após algumas tentativas hilárias, Nakamura realmente é notado pelo Hirose. E justamente por Nakamura não ser o estereótipo do cara "machão" (e babaca), o Hirose vê no moleque a oportunidade de ter uma amizade mais verdadeira, onde ele pode ser ele mesmo sem precisar se submeter às partes mais desgastantes de "ser homem" no ciclo social masculino adolescente.

Mas a parte de se apaixonar não rola. Hirose parece sequer perceber que há segundas intenções por parte do Nakamura. E em dado momento do ano, ocorre o pior para o Nakamura: o Hirose é abordado por uma gatinha e eles começam a namorar.

Em sua maior parte, Go For It, Nakamura-kun!! é um animê bem gostosinho de assistir. As situações passeiam entre o fofo e o hilário, são vários os personagens carismáticos, a produção como um todo parece se empenhar bastante em dar uma cara de desenhão animado mesmo pra obra, com tudo sendo vibrante aos olhos, além do ar mais retrô que as músicas escolhidas pros créditos de encerramento dos episódios trazem. É animê de "quentinho no coração", de colocar um sorrisão na cara enquanto assiste.

Por isso, quando isso é quebrado no episódio 12, o baque emocional é realmente impactante. Começa bonitinho. É dia de São Valentim (dia dos namorados) lá no Japão. Aí, tem aquela prática de as garotas prepararem chocolates e levarem para presentear aqueles que elas têm sentimentos, sejam amigos, familiares, professores ou interesses românticos. O Nakamura leva um para o Hirose, mas não consegue entregar.

Contudo, na saída do prédio da escola, o Hirose puxa o assunto sobre entregas de chocolates nessa data, aparentando estar com sentimentos confusos sobre receber ou não os doces de alguém. De quem? Do próprio Nakamura, o Nakamura cogita. E vai para casa feliz, sentindo que o amor que ele sente pode ser recíproco. Só que não era.

No dia seguinte, naquela mesma saída, o Nakamura vê o Hirose e sua nova namorada. Os chocolates foram dados por ela. Ela se declarou para ele. Ele disse que sim e o namoro começou.

O que segue daí é a direção do animê retratando a ficha do Nakamura caindo, de que ele não ficará com o Hirose. Era só amizade. A trilha sonora cintilante de sempre dá lugar a uma mais melancólica. A paleta de cores fica mais fechada. O dia seguinte na escola é retratado como uma tentativa de normalidade, que fica áspero, frio e desbotado conforme o Nakamura vai se dando conta de que não vai conseguir fugir daqueles sentimentos ruins. Ironicamente, os pontos de luz surgem quando a menina com quem o Hirose namora aparece. Ela é doce, gentil, uma graça de pessoa. Pois não é ela o problema. Ninguém ali é.

Na volta para casa, em meio a uma profusão de pensamentos, o Nakamura passa por uma porção de casais de diferentes idades, visuais, alguns com filhos. Mas todos héteros, com um homem e uma mulher. É como se a trama apontasse que o Nakamura está vendo algo que ele jamais terá, pois ele não é o "normal". E quando ele chega em casa, temos uma cena de cortar o coração, o moleque chorando, lamentando que sabia que iria doer quando acontecesse, mas que ainda assim era horrível. Ele foge de casa com sua bicicleta na hora do jantar e chora mais, lembrando de todos os momentos legais que passou até então com o Hirose, mas agora com uma nova camada de tristeza que deixa tudo agridoce.

E ao fim do episódio, quando geralmente entra alguma música pop standard japonesa divertida de antigamente, os créditos sobem mostrando só o quarto do Nakamura, com um diálogo entre a mãe e a irmã mais nova dele, no qual a menina diz que é para não irem atrás do irmão, porque muita coisa anda acontecendo com ele, ela só não sabe ao certo o quê.

Se ainda não tiver assistido ao animê, não se preocupe. O final não é trágico. No dia seguinte, as coisas voltam ao normal. Porque essa é a adolescência. O Nakamura ter essa explosão de sentimentos e não saber lidar com eles é, talvez, a expressão máxima do que é esse período da vida. E assim como ocorre com todos nós aqui desse lado da tela, a vida segue para ele e para os demais envolvidos.

Pode soar meio estúpido, pois no fundo, no fundo, é só uma história de amor platônico estudantil que não deu em nada. Só que há tanta ternura em Go For It, Nakamura-kun!! que mesmo enredos já tão explorados como esse ficam uma graça de assistir. E eu adoro os filmes do diretor Xavier Dolan, então acredite que histórias de gays sofrendo por estarem interessados em héteros não são novidade. Mas essa aqui é realmente excelente.

É bom estar vivo em um ano onde as temáticas LGBTQ+ são cada vez mais frequentes na cultura pop. Não é um mundo perfeito ainda, mas já foi bem pior. Bom (final de) mês do orgulho aí, galera!

Sabe aquele momento em um animê, filme, mangá, em que você pensa "Nossa, mano, é isso aí!!!"? Há uma palavra no vocabulário japonês que resume isso: "sugoi". Sugoi é um adjetivo que expressa o quanto algo pode ser incrível, grandioso, maravilhoso, magnífico, terrível, espetacular. E nessa coluna, assinada por Igor Lunei, são relembrados, justamente, esses "momentos sugoi" de animês, filmes e mangás que marcaram época, ou que valem um maior reconhecimento. O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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